MindRise – Human Development

O que a incerteza nos pede, mesmo quando não queremos ouvir

Área: Desenvolvimento Humano & Saúde Emocional Leitura: 5–6 min Publicado: 15/05/2026

Dra. Susana Marques da Cunha — Diretora Científica e CEO da MindRise

Mulher com expressão pensativa, representando incerteza e reflexão emocional
Há momentos na vida em que algo deixa de fazer sentido.

Introdução

Há momentos na vida em que algo deixa de fazer sentido, mesmo que, à primeira vista, tudo pareça igual.

Continuamos a cumprir rotinas, a tomar decisões, a responder ao que nos é pedido. Mas, por dentro, instala-se uma sensação diferente. As escolhas começam a pesar, a motivação enfraquece, e aquilo que antes parecia claro torna-se difuso. Como se estivéssemos a caminhar num terreno que conhecíamos… mas que, de repente, deixou de nos orientar.

São fases difíceis de explicar, sobretudo porque não têm uma causa única nem um momento exato de início. Acontecem. Instalam-se. E obrigam-nos a parar. mesmo quando preferíamos continuar.

E talvez seja precisamente aí que algo importante começa.

Quando o que era certo deixa de o ser

Ao longo da vida, construímos formas de estar que nos dão estrutura. Ideias sobre quem somos, o que queremos, o que faz sentido. Estas referências ajudam-nos a decidir, a avançar, a sentir alguma estabilidade.

Mas o desenvolvimento humano não acontece dentro de estruturas fixas. Crescer implica, muitas vezes, ultrapassar aquilo que antes nos servia. O que foi adequado numa fase pode tornar-se limitador noutra.

A psicologia do desenvolvimento descreve estes momentos como períodos de reorganização interna. Não são interrupções no caminho — são parte dele. Surgem quando há um desajuste entre aquilo que somos e aquilo que estamos a viver.

E é nesse desajuste que começa a mudança.

A experiência de não saber

Talvez uma das partes mais difíceis destas fases seja a incerteza. Não saber exatamente o que está a acontecer, nem para onde ir. Sentir que as respostas antigas já não chegam, mas que as novas ainda não estão claras.

Vivemos numa cultura que valoriza a clareza, a rapidez e a decisão. Saber o que fazer é visto como sinal de competência. Não saber é muitas vezes vivido como fragilidade.

Mas, do ponto de vista psicológico, o “não saber” pode ser um espaço necessário. Um intervalo entre versões de nós próprios. Um tempo em que algo se está a reorganizar, mesmo que ainda não seja visível.

A transformação raramente acontece de forma linear. Antes de se tornar clara, passa por um momento de desestruturação.

O que se desfaz pode estar a abrir caminho

Quando algo interno se desorganiza, a tendência natural é tentar rapidamente reconstruir. Procurar novas certezas, substituir respostas, recuperar controlo.

Mas nem sempre é possível - nem desejável - fazer esse movimento de imediato.

Modelos contemporâneos de desenvolvimento humano mostram que o crescimento implica, por vezes, a desconstrução de estruturas anteriores. Aquilo que deixa de fazer sentido não é um erro; pode ser um sinal de evolução.

É nesse espaço, ainda indefinido, que surgem novas perguntas:

O que é que ainda faz sentido para mim?

O que é que estou a manter apenas por hábito ou expectativa?

O que preciso de rever, mesmo que seja desconfortável

Nem sempre as respostas aparecem de imediato. Mas o simples facto de as perguntas existirem já indica movimento.

Perder-se como parte do processo

A ideia de “perder-se” carrega, muitas vezes, uma conotação negativa. Como se implicasse desvio, erro ou fracasso. Como se houvesse um caminho certo do qual nos afastámos.

Mas, na experiência humana, perder-se pode ser outra coisa. Pode ser o momento em que deixamos de seguir um percurso automático para começar a olhar com mais consciência para o que estamos a viver.

Perder-se pode significar deixar cair expectativas que já não correspondem à realidade. Pode ser o início de uma relação mais honesta consigo próprio.

Não é um processo confortável. Exige tolerância à dúvida, capacidade de permanecer no desconforto e disponibilidade para não ter todas as respostas.

Mas é, muitas vezes, um processo profundamente transformador.

A identidade em movimento

A identidade não se constrói de uma vez. Não é algo fixo que encontramos e mantemos intacto ao longo da vida. É um processo dinâmico, que se ajusta, se redefine e se aprofunda com a experiência.

Existem momentos em que essa construção se torna mais visível — quando algo deixa de encaixar e sentimos necessidade de reavaliar quem somos e para onde vamos.

A psicologia mostra que uma identidade mais integrada não nasce da ausência de conflito, mas da capacidade de o atravessar. É no questionamento, na dúvida e na reflexão que se consolida um sentido de si mais consistente.

Por isso, quando a identidade parece confusa, pode não estar a desaparecer. Pode estar a reorganizar-se.

Dar tempo ao que está a emergir

Num mundo que valoriza soluções rápidas, dar tempo a um processo interno pode parecer contraintuitivo. Mas o desenvolvimento psicológico tem o seu próprio ritmo.

Nem tudo precisa de ser resolvido imediatamente. Nem todas as fases exigem ação. Algumas pedem apenas presença.

Estar com o que se sente, sem a urgência de transformar ou corrigir, pode ser um passo importante. Permitir que aquilo que ainda não está claro se torne, aos poucos, compreensível.

Quando necessário, este processo pode ser acompanhado. A psicoterapia oferece um espaço onde estas fases podem ser exploradas com maior clareza e segurança — não para acelerar respostas, mas para as tornar mais conscientes.

A vida não se constrói apenas nos momentos de certeza. Constrói-se, muitas vezes, nos intervalos — nos momentos em que algo deixa de fazer sentido e ainda não sabemos exatamente o que vem a seguir.

Na MindRise acreditamos que estes momentos não são desvios. São parte do desenvolvimento humano. Perder-se não é o oposto de encontrar-se — é, muitas vezes, uma das formas mais profundas de lá chegar.

Porque, por vezes, é precisamente quando tudo parece fora do lugar que começamos, finalmente, a ver com mais clareza