Ansiedade num mundo imprevisível: quando o alerta deixa de desligar
Dra. Susana Marques da Cunha — Diretora Científica e CEO da MindRise
Introdução
Há dias em que nada de concreto corre mal, e, ainda assim, o corpo não relaxa. O peito mantém-se apertado, a respiração parece curta, a mente vagueia entre cenários possíveis. Mesmo em momentos de pausa, algo permanece ligado. Muitas pessoas descrevem esta sensação como viver “em estado de alerta”, sem saber exatamente porquê.
Esta experiência tornou-se cada vez mais comum. Não porque as pessoas estejam mais frágeis ou menos resilientes, mas porque o mundo em que vivemos se tornou profundamente imprevisível. A ansiedade, nestes tempos, não nasce apenas da história individual. Nasce também do contexto coletivo que habitamos todos os dias.
Quando a insegurança se torna ambiente
O cérebro humano foi desenhado para responder ao perigo e, depois, regressar ao equilíbrio. Este mecanismo é fundamental para a sobrevivência. Mas o que acontece quando o perigo não é claro, não é imediato e não tem fim definido?
Guerras distantes, mas constantemente presentes nos ecrãs. Instabilidade política. Crise climática. Inflação. Mudanças rápidas no trabalho, na educação, nas relações. Mesmo quando estas realidades não nos atingem diretamente, o sistema nervoso regista-as como sinais de ameaça.
A psicologia e a neurociência mostram-nos que a exposição prolongada à incerteza mantém o corpo num estado de ativação contínua. Não se trata de medo intenso, mas de antecipação constante. Uma vigilância silenciosa que consome energia emocional e dificulta o descanso interno.
Ansiedade não é falta de controlo
É frequente ouvir em contexto clínico frases como: “Eu sei que estou a exagerar, mas não consigo desligar.” Esta tentativa de racionalizar o sofrimento revela um equívoco comum: a ideia de que a ansiedade é uma falha de controlo ou de pensamento.
Na realidade, a ansiedade é uma resposta adaptativa que se prolongou no tempo. Quando o sistema nervoso permanece ativado durante demasiado tempo, começam a surgir sinais que vão além da mente. O corpo fala: tensão muscular persistente, dores difusas, alterações gastrointestinais, fadiga crónica, dificuldade em dormir, irritabilidade, dificuldade de concentração.
Não é imaginação. É o corpo a tentar proteger-se num mundo percecionado como instável.
Entre a preocupação e o esgotamento emocional
Preocupar-se é humano e necessário. A preocupação ajuda-nos a planear, a antecipar riscos, a proteger quem amamos. Mas quando deixa de ser flexível, quando ocupa todo o espaço mental, transforma-se em esgotamento emocional.
Muitas pessoas habituam-se a este nível de tensão. Funcionam, cumprem responsabilidades, seguem em frente. Só percebem o impacto quando o prazer diminui, quando a paciência encurta ou quando o corpo começa a exigir pausas forçadas.
Viver constantemente em modo de sobrevivência tem um custo. E esse custo merece ser reconhecido, não normalizado.
Criar segurança num mundo instável
Não podemos controlar o mundo, nem eliminar a incerteza. Mas podemos aprender a criar segurança interna. Isso começa por reconhecer a ansiedade sem julgamento, compreendendo que ela faz sentido no contexto atual.
Regulação emocional não significa eliminar o desconforto, mas aprender a escutá-lo e a responder-lhe com cuidado. Criar limites na exposição constante a notícias negativas, permitir pausas reais, escutar os sinais do corpo e legitimar a necessidade de apoio são passos fundamentais.
A psicoterapia oferece precisamente esse espaço: um lugar onde a ansiedade pode ser compreendida, contextualizada e transformada. Um espaço onde não é preciso estar sempre forte, sempre funcional, sempre em controlo.
Conclusão
Viver com ansiedade num mundo imprevisível não é sinal de fragilidade. É sinal de sensibilidade a um contexto exigente. Cuidar da saúde mental hoje é um gesto de responsabilidade, mas também de humanidade.
Na MindRise, acreditamos que a ansiedade pode ser acolhida, compreendida e integrada. Não para negar a realidade, mas para fortalecer a capacidade de viver nela com maior equilíbrio, presença e sentido.
Porque mesmo quando o alerta parece permanente, é possível aprender a voltar a sentir segurança. E porque ninguém deve atravessar sozinho este tempo de incerteza.