O verão passa depressa. A infância e a adolescência também.
Dra. Susana Marques da Cunha — Diretora Científica e CEO da MindRise
Introdução
Vivemos depressa.
Tão depressa que, muitas vezes, os dias parecem uma sucessão de horários, compromissos e tarefas por cumprir. Entre o trabalho, a escola, as atividades, as refeições, as deslocações e tantas outras responsabilidades, sobra pouco espaço para simplesmente estar.
Não porque os pais não queiram.
Mas porque a vida, tal como hoje a vivemos, raramente abranda.
Também a relação com os filhos acaba, muitas vezes, por seguir esse ritmo.
As conversas acontecem entre uma viagem de carro e outra, à mesa do jantar ou antes de dormir. Procuramos garantir que tudo corre bem, que nada fica esquecido e que as necessidades de todos são respondidas. Fazemos o melhor que conseguimos, todos os dias.
Ainda assim, é frequente sentirmos que o tempo passa demasiado depressa.
E que os filhos parecem crescer quase sem darmos conta.
O valor de abrandar
Talvez seja precisamente por isso que o verão tem um valor que vai muito além das férias.
Não é apenas uma pausa na escola ou no trabalho.
É uma oportunidade para recuperar algo que, durante grande parte do ano, parece escasso.
O tempo.
Tempo para caminhar sem destino.
Para brincar sem olhar constantemente para o relógio.
Para conversar sem a preocupação de interromper porque já é hora de sair.
Para cozinhar juntos, descobrir um novo lugar, observar um pôr do sol ou simplesmente ficar em silêncio.
São momentos simples.
Mas é muitas vezes nesses momentos que voltamos a encontrar-nos.
Os filhos mudam todos os dias
O desenvolvimento humano não faz pausas durante o verão.
Uma criança não deixa de crescer porque as aulas terminaram.
Continua a descobrir novas capacidades, a fazer perguntas diferentes, a experimentar emoções, a construir relações e a compreender o mundo de uma forma cada vez mais complexa.
Também um adolescente continua a construir a sua identidade, a questionar ideias, a procurar autonomia e a descobrir quem é.
Na verdade, todos mudamos continuamente.
A diferença é que, durante o resto do ano, nem sempre temos disponibilidade para reparar nessas pequenas mudanças.
O verão oferece-nos essa possibilidade.
A de observar sem pressa.
A de escutar com mais atenção.
A de descobrir interesses que nunca tinham surgido numa conversa rápida antes de sair de casa.
A de perceber que o nosso filho já não é exatamente igual ao que era há alguns meses.
Estar juntos não é o mesmo que estar presentes
Passar mais tempo em família não garante, por si só, uma maior proximidade.
Podemos passar um dia inteiro na praia e, ainda assim, cada um permanecer no seu próprio mundo.
Também podemos partilhar uma caminhada de meia hora e sentir que aconteceu uma conversa que ficará connosco durante muito tempo.
A diferença raramente está na atividade.
Está na qualidade da presença.
Quando abrandamos, começamos a observar melhor.
Reparamos na forma como uma criança resolve um pequeno problema sozinha. Descobrimos um sentido de humor que ainda não conhecíamos. Ouvimos perguntas inesperadas. Percebemos preocupações que permaneciam escondidas entre os ritmos acelerados do quotidiano.
Conhecer um filho não acontece apenas através das grandes conversas.
Acontece sobretudo através da atenção que lhe dedicamos todos os dias.
O desenvolvimento acontece na vida que vivemos
Existe uma tendência crescente para procurar férias cheias de atividades, experiências e programas.
Tudo isso pode ser muito enriquecedor.
Mas importa recordar que o desenvolvimento humano não depende apenas daquilo que organizamos para as crianças.
Depende, sobretudo, daquilo que elas vivem.
Uma manhã a construir um castelo de areia pode ensinar persistência.
Uma caminhada na natureza pode despertar curiosidade.
Preparar o almoço em conjunto pode desenvolver autonomia e responsabilidade.
Resolver um conflito entre irmãos pode ser uma oportunidade para aprender a negociar, a esperar e a reparar uma relação.
Até o tédio, tantas vezes evitado, pode tornar-se um espaço fértil para a criatividade, a imaginação e a iniciativa.
As experiências mais simples são, muitas vezes, aquelas que deixam marcas mais profundas.
Também os pais continuam a crescer
Há outra ideia que merece ser lembrada.
Enquanto os filhos crescem, os pais também se transformam.
Cada fase da infância e da adolescência convida a uma forma diferente de cuidar.
Aquilo que tranquilizava uma criança pequena pode já não resultar com um pré-adolescente. O que fazia sentido há dois anos pode precisar hoje de ser repensado.
Educar é também aceitar que a relação evolui.
Que conhecer um filho não é algo que acontece apenas uma vez.
É um processo contínuo.
Talvez seja por isso que o verão seja tão importante.
Porque nos devolve tempo para observar quem os nossos filhos se estão a tornar.
E, ao mesmo tempo, para refletirmos sobre quem queremos ser enquanto pais.
Talvez não precisemos de fazer mais
Vivemos numa época em que existe uma enorme pressão para aproveitar as férias da melhor forma.
Queremos criar memórias inesquecíveis.
Escolher os melhores destinos.
Encontrar atividades diferentes.
Garantir que cada dia é especial.
Mas talvez o maior presente que possamos oferecer aos nossos filhos seja muito mais simples.
Tempo.
Tempo vivido sem a constante sensação de urgência.
Tempo em que ninguém precisa de correr.
Tempo para conversar quando a conversa acontece.
Tempo para rir sem motivo.
Tempo para observar.
Tempo para estar.
Porque aquilo que permanece na memória raramente são apenas os lugares que visitámos.
São as pessoas com quem nos sentimos verdadeiramente vistos.
Um convite para este verão
Talvez, antes de setembro chegar, possamos fazer um pequeno exercício.
Olhar novamente para os nossos filhos com curiosidade.
Perguntar menos quem eram há um ano.
E tentar descobrir quem são hoje.
Que novos interesses apareceram?
O que os faz sorrir?
O que os preocupa?
O que aprenderam sobre si próprios?
Como cresceram, sem que talvez tivéssemos reparado?
Na MindRise, acreditamos que o desenvolvimento humano acontece todos os dias.
Acontece nas aprendizagens, nas relações, nas pequenas experiências do quotidiano e, sobretudo, no tempo que dedicamos a conhecer verdadeiramente aqueles que amamos.
O verão não interrompe esse desenvolvimento.
Pelo contrário.
Talvez seja uma das épocas do ano em que ele se torna mais visível.
Se tivermos disponibilidade para abrandar.
E para voltar a olhar.