MindRise – Human Development

Adolescentes: quando se afastam para se encontrarem

Área: Parentalidade & Adolescência Leitura: 5–6 min Publicado: 15/05/2026

Dra. Susana Marques da Cunha — Diretora Científica e CEO da MindRise

Grupo de adolescentes em fase de construção de identidade, autonomia e pertença social

Introdução

Há uma fase na vida dos filhos que muitas mães/pais descrevem com a mesma sensação: “Sinto que o estou a perder.”

O filho que antes procurava colo, conversa, presença… começa a fechar-se. As respostas tornam-se curtas. O quarto passa a ser o refúgio. O telemóvel ganha espaço. Os amigos tornam-se prioridade.

E, do lado de cá, surge uma mistura difícil de explicar: preocupação, tristeza, dúvida, perda… e, muitas vezes, culpa.

“O que fiz de errado?”

“Porque é que já não fala comigo?”

“Será que já não precisa de mim?”

Se te reconheces nestas perguntas, é importante começares por isto:

na maioria das vezes, não estás a perder o teu filho.

Ele está a crescer.

Quando o afastamento dói

A adolescência traz mudanças que não são apenas visíveis — são sentidas na relação.

Para uma mãe, este afastamento pode ser vivido quase como um pequeno luto. Não porque o vínculo desapareça, mas porque a forma de estar muda. Aquela proximidade espontânea deixa de acontecer da mesma maneira. E isso dói.

Dói porque o amor continua lá, intacto.

Mas já não encontra o mesmo espaço de expressão.

E é natural que assim seja.

Ele não se afasta de ti. Aproxima-se de si próprio.

Uma das ideias mais importantes, e também mais difíceis de integrar, é esta: o afastamento do adolescente não é rejeição. É desenvolvimento.

O teu filho precisa de se diferenciar para se construir. Precisa de experimentar, de testar, de questionar. Precisa, em algum momento, de deixar de ser apenas “o teu filho” para começar a descobrir quem é como pessoa.

E esse processo começa, inevitavelmente, em casa.

Não porque a casa deixa de ser segura.

Mas porque foi segura o suficiente para ele poder sair.

Um cérebro que sente tudo, mas ainda não sabe como gerir

Nesta fase, o que está a acontecer dentro do adolescente ajuda a explicar muito do que se vê por fora.

O cérebro emocional está mais ativo. As emoções são mais intensas, mais rápidas, mais difíceis de conter. Ao mesmo tempo, as áreas responsáveis pela regulação, pela ponderação e pela tomada de decisão ainda estão em desenvolvimento.

Isto significa que o teu filho:

• sente mais do que antes;

• reage com mais intensidade;

• tem mais dificuldade em explicar o que se passa dentro dele.

E, muitas vezes, afasta-se não porque não quer relação,

mas porque ainda não sabe como a gerir.

Quando ser mãe deixa de ser o que sempre foi

Há uma mudança silenciosa que acontece nesta fase, e que raramente é falada.

Ser mãe/pai de um adolescente não é o mesmo que ser mãe/pai de uma criança.

Aquilo que sabias fazer, aquilo que resultava, aquilo que te dava segurança… já não funciona da mesma forma. E isso pode gerar uma sensação profunda de perda de controlo.

Antes, o teu papel era estar muito presente, antecipar, proteger, orientar de forma direta. Agora, esse lugar muda.

E essa mudança pode ser desconcertante.

Porque, de repente, já não tens de estar sempre lá.

Mas tens de continuar disponível.

Já não tens de saber tudo.

Mas tens de continuar a ser referência.

Já não tens de resolver.

Mas tens de saber acompanhar.

E isto exige uma reorganização interna também em ti.

O silêncio que inquieta

Talvez o mais difícil seja o silêncio.

A falta de partilha. As respostas fechadas. A sensação de que já não sabes o que se passa.

Mas o silêncio do adolescente não é vazio. É processo.

Ele está a pensar, a sentir, a reorganizar-se. Está a construir uma identidade que ainda não consegue explicar, nem a si próprio, muito menos aos outros.

E, por vezes, falar é mais difícil do que ficar em silêncio.

O que ele precisa de ti, mesmo quando não parece

Aqui está um dos pontos mais importantes:

Mesmo quando se afasta, o teu filho continua a precisar de ti.

Não da mesma forma de antes.

Mas talvez de uma forma ainda mais exigente.

Precisa de:

• saber que estás disponível, sem pressão;

• sentir que pode voltar, sem julgamento;

• encontrar limites claros, mesmo quando os contesta;

• perceber que a relação continua segura, mesmo nas fases difíceis.

Ele pode não pedir.

Mas está a observar.

Está a perceber se estás lá, ou se também te afastas.

Entre controlar e desistir

Muitas mães/pais oscilam entre dois extremos:

Ou tentam controlar: perguntar tudo, insistir, aproximar-se à força.

Ou desistem. Afastam-se, por medo de invadir ou por sensação de rejeição.

Nenhum destes caminhos ajuda.

O desafio está no meio caminho

estar presente, sem invadir.

manter limites, sem rigidez.

continuar disponível, sem exigir proximidade constante.

É um equilíbrio difícil. E ninguém o faz de forma perfeita.

E quando o medo aumenta?

Há situações em que a angústia dos pais aumenta, e com razão.

Quando o afastamento se transforma em isolamento persistente, tristeza prolongada, mudanças abruptas de comportamento ou perda de interesse pela vida, é importante não ignorar.

Nestes casos, pode não ser apenas desenvolvimento. Pode ser sofrimento.

E procurar ajuda não é exagero.

É cuidado.

Uma nova forma de relação

Talvez uma das maiores aprendizagens desta fase seja esta:

a relação não está a desaparecer. Está a transformar-se.

Deixa de ser constante para se tornar mais escolhida.

Deixa de ser imediata para se tornar mais profunda.

E, muitas vezes, quando o adolescente encontra o seu lugar, volta,

de uma forma diferente, mas mais inteira.

Um lembrete importante

Se há algo que vale a pena guardar deste momento é isto:

Não és um/a mãe/pai menos importante porque o teu filho se afasta.

Pelo contrário.

O facto de ele se afastar com segurança pode ser sinal de que fizeste muito bem o teu papel até aqui.

Na MindRise acreditamos que a adolescência não é o fim da relação, é a sua evolução.

E que, muitas vezes, é ao afastar-se que o teu filho começa a encontrar quem é.

E é ao manteres-te presente, com calma e consistência,

que ele sabe sempre onde pode voltar.