Adolescentes: quando se afastam para se encontrarem
Dra. Susana Marques da Cunha — Diretora Científica e CEO da MindRise
Introdução
Há uma fase na vida dos filhos que muitas mães/pais descrevem com a mesma sensação: “Sinto que o estou a perder.”
O filho que antes procurava colo, conversa, presença… começa a fechar-se. As respostas tornam-se curtas. O quarto passa a ser o refúgio. O telemóvel ganha espaço. Os amigos tornam-se prioridade.
E, do lado de cá, surge uma mistura difícil de explicar: preocupação, tristeza, dúvida, perda… e, muitas vezes, culpa.
“O que fiz de errado?”
“Porque é que já não fala comigo?”
“Será que já não precisa de mim?”
Se te reconheces nestas perguntas, é importante começares por isto:
na maioria das vezes, não estás a perder o teu filho.
Ele está a crescer.
Quando o afastamento dói
A adolescência traz mudanças que não são apenas visíveis — são sentidas na relação.
Para uma mãe, este afastamento pode ser vivido quase como um pequeno luto. Não porque o vínculo desapareça, mas porque a forma de estar muda. Aquela proximidade espontânea deixa de acontecer da mesma maneira. E isso dói.
Dói porque o amor continua lá, intacto.
Mas já não encontra o mesmo espaço de expressão.
E é natural que assim seja.
Ele não se afasta de ti. Aproxima-se de si próprio.
Uma das ideias mais importantes, e também mais difíceis de integrar, é esta: o afastamento do adolescente não é rejeição. É desenvolvimento.
O teu filho precisa de se diferenciar para se construir. Precisa de experimentar, de testar, de questionar. Precisa, em algum momento, de deixar de ser apenas “o teu filho” para começar a descobrir quem é como pessoa.
E esse processo começa, inevitavelmente, em casa.
Não porque a casa deixa de ser segura.
Mas porque foi segura o suficiente para ele poder sair.
Um cérebro que sente tudo, mas ainda não sabe como gerir
Nesta fase, o que está a acontecer dentro do adolescente ajuda a explicar muito do que se vê por fora.
O cérebro emocional está mais ativo. As emoções são mais intensas, mais rápidas, mais difíceis de conter. Ao mesmo tempo, as áreas responsáveis pela regulação, pela ponderação e pela tomada de decisão ainda estão em desenvolvimento.
Isto significa que o teu filho:
• sente mais do que antes;
• reage com mais intensidade;
• tem mais dificuldade em explicar o que se passa dentro dele.
E, muitas vezes, afasta-se não porque não quer relação,
mas porque ainda não sabe como a gerir.
Quando ser mãe deixa de ser o que sempre foi
Há uma mudança silenciosa que acontece nesta fase, e que raramente é falada.
Ser mãe/pai de um adolescente não é o mesmo que ser mãe/pai de uma criança.
Aquilo que sabias fazer, aquilo que resultava, aquilo que te dava segurança… já não funciona da mesma forma. E isso pode gerar uma sensação profunda de perda de controlo.
Antes, o teu papel era estar muito presente, antecipar, proteger, orientar de forma direta. Agora, esse lugar muda.
E essa mudança pode ser desconcertante.
Porque, de repente, já não tens de estar sempre lá.
Mas tens de continuar disponível.
Já não tens de saber tudo.
Mas tens de continuar a ser referência.
Já não tens de resolver.
Mas tens de saber acompanhar.
E isto exige uma reorganização interna também em ti.
O silêncio que inquieta
Talvez o mais difícil seja o silêncio.
A falta de partilha. As respostas fechadas. A sensação de que já não sabes o que se passa.
Mas o silêncio do adolescente não é vazio. É processo.
Ele está a pensar, a sentir, a reorganizar-se. Está a construir uma identidade que ainda não consegue explicar, nem a si próprio, muito menos aos outros.
E, por vezes, falar é mais difícil do que ficar em silêncio.
O que ele precisa de ti, mesmo quando não parece
Aqui está um dos pontos mais importantes:
Mesmo quando se afasta, o teu filho continua a precisar de ti.
Não da mesma forma de antes.
Mas talvez de uma forma ainda mais exigente.
Precisa de:
• saber que estás disponível, sem pressão;
• sentir que pode voltar, sem julgamento;
• encontrar limites claros, mesmo quando os contesta;
• perceber que a relação continua segura, mesmo nas fases difíceis.
Ele pode não pedir.
Mas está a observar.
Está a perceber se estás lá, ou se também te afastas.
Entre controlar e desistir
Muitas mães/pais oscilam entre dois extremos:
Ou tentam controlar: perguntar tudo, insistir, aproximar-se à força.
Ou desistem. Afastam-se, por medo de invadir ou por sensação de rejeição.
Nenhum destes caminhos ajuda.
O desafio está no meio caminho
estar presente, sem invadir.
manter limites, sem rigidez.
continuar disponível, sem exigir proximidade constante.
É um equilíbrio difícil. E ninguém o faz de forma perfeita.
E quando o medo aumenta?
Há situações em que a angústia dos pais aumenta, e com razão.
Quando o afastamento se transforma em isolamento persistente, tristeza prolongada, mudanças abruptas de comportamento ou perda de interesse pela vida, é importante não ignorar.
Nestes casos, pode não ser apenas desenvolvimento. Pode ser sofrimento.
E procurar ajuda não é exagero.
É cuidado.
Uma nova forma de relação
Talvez uma das maiores aprendizagens desta fase seja esta:
a relação não está a desaparecer. Está a transformar-se.
Deixa de ser constante para se tornar mais escolhida.
Deixa de ser imediata para se tornar mais profunda.
E, muitas vezes, quando o adolescente encontra o seu lugar, volta,
de uma forma diferente, mas mais inteira.
Um lembrete importante
Se há algo que vale a pena guardar deste momento é isto:
Não és um/a mãe/pai menos importante porque o teu filho se afasta.
Pelo contrário.
O facto de ele se afastar com segurança pode ser sinal de que fizeste muito bem o teu papel até aqui.
Na MindRise acreditamos que a adolescência não é o fim da relação, é a sua evolução.
E que, muitas vezes, é ao afastar-se que o teu filho começa a encontrar quem é.
E é ao manteres-te presente, com calma e consistência,
que ele sabe sempre onde pode voltar.