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Regresso à rotina: ansiedade, exigências quotidianas e novas oportunidades

Área: Psicologia Clínica Leitura: ~4 min por Dra. Susana Marques da Cunha 13 out 2025
Regresso à rotina — gerir a ansiedade e as exigências quotidianas
Regresso à rotina: reconhecer os sinais de ansiedade e transformar as exigências diárias em oportunidades de equilíbrio e crescimento.

O regresso ao trabalho após as férias chega muitas vezes como um “segundo janeiro”. Não há fogo de artifício nem promessas de mudança à meia-noite, mas há um sentimento partilhado de recomeço. Férias terminadas, trabalho acumulado, filhos de regresso às aulas, agendas que voltam a encher-se. Para muitos de nós, esta é uma altura em que se sente a verdadeira pressão do tempo: múltiplas exigências a concorrerem por atenção e energia.

E é aqui que a ansiedade aparece. Não como sinal de fraqueza, mas como resposta natural do corpo e da mente a um novo ciclo que exige readaptação. O que acontece connosco nesta fase?

A ciência ajuda-nos a perceber: o cérebro gosta de padrões previsíveis. Durante as férias, criamos rotinas diferentes, mais leves e prazerosas. O regresso à rotina obriga a uma reorganização súbita — horários mais rígidos, decisões rápidas, responsabilidades acrescidas. Esta mudança ativa os mecanismos de alerta. O corpo sente-se em tensão, o sono altera-se, a paciência diminui.

Não é por acaso que tantas pessoas descrevem setembro como um mês “pesado”. Na verdade, ele coloca-nos perante um desafio: conciliar papéis diferentes em pouco tempo. Ser profissional competente, mãe ou pai disponível, amigo presente, parceiro atencioso, e ainda cuidar de nós próprios.

A multiplicidade de papéis

Talvez seja aqui que a ansiedade mais se faz sentir: na perceção de que não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo. No trabalho, espera-se produtividade. Em casa, espera-se atenção e organização. No meio de tudo isto, a vida pessoal — ler, praticar desporto, descansar — tende a ser a primeira a ficar para trás.

É neste desequilíbrio que a sobrecarga se instala. Não porque falhemos, mas porque as exigências externas e internas se acumulam até um ponto em que o corpo e a mente dizem “basta”.

E se a ansiedade fosse também um convite?

A ansiedade tem uma má reputação: é vista como inimiga. Mas e se a interpretássemos como um sinal de que algo precisa de ser reorganizado? A ciência mostra que a ansiedade é, antes de mais, um mecanismo de adaptação. É ela que nos alerta para riscos, que nos lembra de preparar, que nos impele a agir.

Se em vez de lutarmos contra a ansiedade a ouvirmos, talvez ela nos mostre onde precisamos de abrandar, pedir ajuda ou redefinir prioridades.

Transformar exigência em oportunidade

O regresso à rotina pode ser mais do que um fardo. Pode ser uma oportunidade para refletir:

  • O que quero realmente manter na minha vida?
  • O que posso deixar ir?
  • Como posso criar espaço para mim, sem me perder nas obrigações?

Não é sobre criar listas intermináveis de tarefas, mas sobre escolher de forma consciente. Pequenas mudanças podem fazer diferença: reservar momentos de autocuidado, renegociar responsabilidades em família, ou simplesmente permitir-se não ser perfeito em tudo.

Quando procurar apoio

É natural sentir algum desconforto nesta fase. Mas se a ansiedade persiste semanas a fio, se o sono se mantém perturbado, se o corpo acusa constantemente tensão, pode ser sinal de que é preciso mais do que pequenas mudanças. Procurar acompanhamento psicológico não é sinal de fraqueza, é um ato de cuidado. A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender o que está por trás da ansiedade e encontrar formas mais saudáveis de lidar com a exigência quotidiana.

O regresso à rotina é, sem dúvida, um tempo de desafios. Mas pode também ser um tempo de reencontro consigo próprio. A ansiedade que sentimos não é apenas obstáculo; pode ser bússola. Mostra-nos o que precisa de ser revisto, cuidado e reorganizado.

Na MindRise, acreditamos que cada transição é uma oportunidade de crescimento. O regresso ao trabalho pode ser pesado, sim. Mas também pode ser o início de um caminho mais equilibrado e alinhado com aquilo que realmente importa.

Dra. Susana Marques da Cunha
Diretora Científica e CEO da MindRise